“E eu com isso?”, disse o editor

11/outubro/2014

Mariana Calil

 

postagem2

Terminei a faculdade há pouco tempo. A maior parte da minha experiência no mercado é como estagiária. Mas acredito que, talvez, essa imaturidade sirva um bocado para pensar o livro eletrônico. Isso porque, ao mesmo tempo em que consolido minhas capacidades profissionais, acompanho os desenvolvimentos e desdobramentos do novo formato, inserindo-o na minha rotina como se as novidades fossem só mais uma parte do aprendizado.

A minha profissão é bem especializada. A função dela é transformar o texto, a produção de um escritor, em um livro. Pois é, autores não escrevem livros, eles escrevem textos. O livro, como conteúdo, é o produto final do ofício do editor. É uma profissão um pouquinho ingrata, já que o maior sinal de um trabalho bem feito é que o leitor não repara na intervenção, pois o editor conseguiu auxiliar o autor e seu texto a encontrarem a melhor forma de transmitir uma mensagem, tanto adaptando o conteúdo quanto a forma.

Novamente, preciso ressaltar que a profissão é bem especializada. Embora o editor tenha uma boa noção de como se escreve um texto, a função dele não é escrever o livro, é ajudar a desenvolver a linguagem e o conteúdo. E, quando tudo está pronto, há a diagramação e a impressão. O editor até confere a apresentação final e busca o formato mais confortável para a leitura do texto, mas geralmente há profissionais especializados que se ocupam de colocar a mão na massa. Não digo que não há mais quem atue como autor-editor-impressor-livreiro, mas hoje o principal modelo comercial do livro exige um grau de especialização muito grande em cada etapa.

E aí, aparecem os e-books. Controversos que só eles, cheios de expectativas, para o bem ou para o mal. Não posso dizer como foi a recepção nas editoras quando, por exemplo, o formato ePub apareceu. Nessa época, eu sequer estava fazendo vestibular, e na verdade mal imaginava como era o trabalho do editor. Mas ainda hoje, tanto na universidade quanto no mercado, o assunto ainda gera mais curiosidade que respostas. Principalmente do editor, esse sujeito tão especializado em mexer no texto.

Não vamos ser injustos: o editor sabe os efeitos que as relações entre a tipografia, o papel e o acabamento do exemplar criam sobre o leitor. Então, o que ele fará no livro eletrônico, esse incrível formato líquido? Os dispositivos, no geral, permitem que o usuário altere a fonte, as margens e a entrelinha, e aí o projeto gráfico vai pro espaço. É melhor só deixar para o setor responsável e conferir o que eles pedirem (isto é, quando pedem).

Ou talvez não. Embora ainda seja muito confuso saber o que é possível ou não nesse novo formato e pensar nas adaptações necessárias para o e-book (ainda mais quando as lojas adotam padrões personalizados que nem sempre atendem às necessidades da publicação), dá, sim, para pensar o formato, mesmo sem entender exatamente o que faz cada linha de código.

Bom, esse post é só a chamada para que você, leitor, nos ajude a pensar o livro eletrônico. Vamos entender o que ele é, o que não é e que expectativas podemos (ou não) criar sobre ele. E aí queremos ouvir vocês: o que falta no e-book? Acha que ele deveria ser diferente do livro físico? O que você espera de um livro digital?

[texto adaptado do post “’E eu com isso?’, disse o editor”, orginalmente publicado no Colofão, um site voltado para editores e produtores de e-books]

 

Mariana Calil, formada em Produção Editorial, é assistente do departamento de livros nacionais da Intrínseca. É também colunista do Colofão.